O Retorno do Capital Global: Por Que o Brasil Virou a Bola da Vez nos Mercados Emergentes

O Retorno do Capital Global: Por Que o Brasil Virou a Bola da Vez nos Mercados Emergentes

Durante muito tempo, os investidores internacionais preferiram apostar na escala da China, na inovação sul-coreana ou na história de crescimento estrutural da Índia. O Brasil acabou ficando em segundo plano, lidando com suas próprias transições políticas e ajustes fiscais fora dos holofotes. Mas o jogo virou neste início de 2026. A Bolsa brasileira não para de renovar máximas históricas, empurrada por um fluxo pesado e consistente de dinheiro estrangeiro. Só para se ter uma ideia, a entrada líquida de capital já bate a casa dos R$ 20,2 bilhões logo nestas primeiras semanas do ano, o que equivale a praticamente 80% de todo o volume registrado ao longo de 2025.

Economia Aquecida e Inflação no Radar

O cenário macroeconômico interno explica boa parte dessa euforia estrangeira. O país apresenta números muito descolados de outros mercados emergentes: o desemprego beira as mínimas de vários anos e a renda média do trabalhador atingiu níveis recordes. A inflação, por sua vez, deu a trégua necessária para animar os investidores. O IPCA-15 de janeiro subiu 0,20%, um resultado perfeitamente alinhado com as projeções do mercado, deixando o índice acumulado em 12 meses na faixa de 4,50%. Tivemos surpresas positivas nos supermercados com a forte queda no preço do leite, embora o consumo de bens industrializados, como perfumes e celulares, tenha exercido certa pressão de alta.

A Rota dos Juros: O Que Esperar da Selic

Com a inflação mais comportada, o Banco Central já traçou seu caminho. A primeira reunião do Copom de 2026 cravou a manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, uma decisão que não pegou ninguém de surpresa. A verdadeira notícia estava nas entrelinhas do comunicado, que deixou claro que o aguardado ciclo de cortes deve começar agora em março. O mercado trabalha com um cenário-base de cinco reduções seguidas de meio ponto percentual, o que puxaria a taxa básica para 12,50% até o fim do ano. Mesmo com esse alívio, o juro real continuaria rodando perto dos 8%. É um patamar alto, bem acima do nível neutro, refletindo os duros desafios fiscais projetados para o próximo mandato presidencial. Na prática, isso mantém o mercado de renda fixa extremamente atraente, especialmente os papéis atrelados à inflação.

O Brasil na Contramão do Mundo

Lá fora, a situação é bem mais espinhosa. A deterioração fiscal nas economias ricas continua pressionando os juros de longo prazo para cima. Ao mesmo tempo, tensões geopolíticas e conflitos prolongados adicionam uma dose extra de risco para as moedas emergentes e para o preço de commodities estratégicas como o petróleo. Ainda assim, a força que marcou os emergentes em 2025 invadiu 2026. Até meados de fevereiro, os índices amplos de mercados emergentes subiram mais de 7% no ano, enquanto o S&P 500 amargou uma leve queda de 0,08%.

Dentro desse bloco, o Brasil desponta como o grande protagonista. O nosso mercado acionário já saltou cerca de 24% no acumulado do ano, superando seus pares emergentes com uma vantagem expressiva de 16 pontos percentuais. O apetite é tão voraz que os ETFs focados no Brasil captaram US$ 3,4 bilhões apenas nos últimos três meses, representando uma injeção superior a 20% do total de ativos sob gestão no início do período. E o mais surpreendente é que o mercado brasileiro ainda representa menos de 5% dos principais índices de emergentes, mostrando o quanto as carteiras globais ainda estão subalocadas por aqui.

Inteligência Artificial e a Retomada das Commodities

E para onde está indo todo esse dinheiro? No ano passado, o setor de utilidades públicas brilhou sozinho. Entregou retornos totais superiores a 80%, impulsionado pelo perfil defensivo e pela previsibilidade das tarifas reguladas. Mas o buraco é mais embaixo. Com a adoção massiva de inteligência artificial por empresas do mundo todo, a garantia de energia para sustentar novos data centers virou um gargalo global. O setor elétrico brasileiro deixou de ser apenas defensivo e passou a ser visto como uma infraestrutura estratégica e indispensável para a expansão da IA.

Agora, os papéis mais cíclicos começam a pegar tração, especialmente em materiais e energia, na esteira da estabilização dos preços das commodities e da expectativa de queda de juros. A Vale (VALE3) é um ótimo termômetro dessa retomada. A mineradora entregou um resultado operacional robusto no quarto trimestre de 2025, superando as próprias projeções em todas as divisões, com um destaque fortíssimo para a área de metais básicos. O mercado financeiro ainda olha para a empresa com certa cautela devido à acomodação nos preços do minério de ferro. A melhora no preço do cobre e a atual rotação global de portfólios, no entanto, ajudam a segurar as pontas e garantem um desempenho relativo sólido para as ações.

Resiliência Comercial em Meio a Tensões

O câmbio também tem feito sua parte. O real se estabilizou frente ao dólar após um período de grande volatilidade, o que acalma os estrangeiros e ajuda a conter a inflação de importados. Obviamente, um real forte demais acende um alerta amarelo para a competitividade das nossas exportações, exigindo um equilíbrio delicado da equipe econômica.

Apesar das incertezas, o comércio exterior brasileiro segue blindado. A dinâmica comercial com a China continua sendo o nosso grande trunfo. Os chineses absorveram quase 80% de toda a soja exportada pelo Brasil em 2025. Eles até anunciam planos para reduzir essa dependência no longo prazo, mas a falta de terras cultiváveis por lá torna qualquer substituição real um processo extremamente lento. O Brasil também soube se adaptar rapidamente às incertezas tarifárias americanas. As vendas para os EUA sofreram um baque, recuando 25,5% na comparação anual, com tombos que chegaram a 38% em outubro passado. Em contrapartida, as exportações gerais para a China saltaram mais de 17% no ano, atingindo picos de 33% de crescimento exatamente no período de maior fraqueza americana, compensando o buraco nas contas.

A cereja do bolo para a nossa balança comercial pode vir da Europa muito em breve. O longo e arrastado acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul finalmente caminha para uma implementação provisória. Quando as portas se abrirem, a expectativa é que as exportações de carne bovina brasileira para o bloco europeu deem um salto monumental de quase 80%, consolidando ainda mais o Brasil como uma potência indispensável no tabuleiro econômico global.